Novo calendário para o varejo nacional de moda

ISTITUTO DI MODA BURGO

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A indústria de moda brasileira sofre muito com os impactos da pandemia do COVID-19 e as mudanças e adaptações para o novo cenário estão acontecendo gradativamente. Agora, a novidade é acerca do calendário de varejo brasileiro. A ABEST (Associação Brasileira dos Estilistas) que representa 120 marcas nacionais se reuniu para discutir o futuro do varejo no país e desenhar o novo calendário de moda de acordo com o cenário atual.

Quando a pandemia começou e as lojas, ateliês e fábricas brasileiras tiveram que fechar, as coleções de inverno haviam sido entregues recentemente e em alguns casos, sendo finalizadas para envio às lojas. Ou seja, mesmo com a reabertura em parte do país, as mercadorias estão nas prateleiras com vendas lentas ou até mesmo paradas. Nesse cenário torna-se inviável seguir o mesmo calendário, onde as liquidações da estação começariam em julho, mês do inverno brasileiro propriamente dito. O que fazia até então as lojas e marcas nacionais se manterem nesse formato era a concorrência com as lojas de fast fashion que criavam a necessidade do mercado ter uma frequência de coleções novas muito grande e as liquidações nessa época. Porém, o produto do varejo de moda brasileiro é altamente prejudicado nessas ações, já que seus produtos não são feitos para serem descartáveis e precisam de mais tempo em mercado com o valor cheio para atingirem os lucros necessários para suprir a cadeia da forma correta e justa. 


Dessa forma, além dos prejuízos para a indústria, os consumidores também são acostumados a valorizar preço e não a origem brasileira de seus produtos, material usado, qualidade e durabilidade das peças. É um modelo que fomenta o consumo desenfreado, sem se basear em custo/benefício e em todo o custo que a cadeia de moda nacional precisa pagar para criar suas próprias peças e desenvolvê-las até chegarem nas prateleiras das lojas. Paulo Borges, criador da SPFW, cita que: “As pessoas reclamam que as roupas são caras, mas elas também não sabem a quantidade de impostos que se paga para uma coleção chegar na arara. Talvez seja o momento para trazer mais transparência, mostrar quanto se paga pela mão de obra e quanto se paga por todos os impostos”. E realmente, é pela falta de conhecimento das pessoas acerca da indústria da moda nacional que temos tantos empecilhos para valorizarmos nossa moda e vendermos os produtos pelos preços justos. 

Mudanças

O grupo ABEST, com apoio do SPFW, InMod e do FFW montaram o novo calendário, que já valerá para o nosso inverno 2020. A ABEST recomenda às lojas e marcas nacionais que comecem suas liquidações de inverno apenas em agosto, para que tenham mais prazo para venderem as peças em preço cheio e abrir liquidações mais perto do fim da estação. A intenção é de alterarem de forma permanente esse 1 mês a mais de calendário para início de liquidação, bem como no verão também: ela sai de julho para agosto e de janeiro para fevereiro. Segundo Roberto Davidowicz, vice-presidente da associação: “É uma mudança muito sutil, estamos mexendo apenas um mês, mas que fará a diferença pro comercial das marcas, que tendem a ter um resultado melhor porque hoje está muito difícil”. O maior desafio será incluir os shopping centers nesse mesmo calendário, o que é o próximo plano da ABEST. 

Abaixo segue a carta aberta publicada pela associação:

“Diante do cenário mundial de pandemia causada pelo novo Coronavírus, nos vemos vivendo em um mundo que nem a ficção previu. O mundo parou. E no nosso setor não foi diferente. Estamos todos em casa e usando a nossa criatividade para não deixarmos nosso negócio parar.

Nossas oficinas de costura, de sapatos, de bolsas, de joias e bijuterias estão paradas. Muitas delas trabalham, mas com um outro foco, estão produzindo máscaras e aventais para serem doados aos hospitais e profissionais de saúde de suas regiões. Surge a pergunta, como vamos fazer para colocar na rua a nossa coleção de inverno? Uma parte já produzida e outra, paralisada por conta do isolamento social.


A chegada da Covid-19 nos fez refletir sobre um assunto que há muito está na cabeça das marcas 100% brasileiras, autorais e pertencentes ao chamado slow fashion. Por que temos que seguir esse calendário, maluco das marcas de fast fashion? Porque depois de 15 dias o que está na arara ou na vitrine está velho e temos que expor e vender uma nova coleção? Nosso produto não é perecível nessa velocidade. Fazemos peças para durar, para serem usadas hoje, amanhã, no próximo ano e assim por diante. Por que as liquidações de inverno precisam acontecer quando inicia-se a estação, julho. As de verão quando os nossos termômetros estão acima dos 30 graus?

Quem compra uma coleção para ficar meses no armário? Poucos, muito poucos.


Pensando nisso, a Associação Brasileira de Estilistas (ABEST) junto com sete dos mais importantes showrooms e pequenas feiras de São Paulo (Salão Casamoda, Contemporâneo Business, Feira TM, Maria Eugenia Showroom, Conceito +, Novo Showroom e Fashionroom, além do apoio do SPFW, InMod e FFW) estabeleceu um novo calendário para a moda.


Em 2020, devido a pandemia, as vendas no atacado acontecerão nas seguintes datas:


•Verão: a partir da segunda quinzena de junho até do dia 10 de julho

•Inverno: segunda quinzena de novembro

Varejo:

•Liquidação inverno: agosto de 2020.

•Liquidação verão: fevereiro de 2021.

Após esse difícil período que estamos vivendo, imaginamos um cenário mais realista para nossos negócios. A partir de 2021 sugerimos as vendas de atacado:

•Verão em maio.

•Inverno em novembro.

As liquidações de varejo continuam sendo fevereiro e agosto."


Carta extraída do portal da ABEST

Fotos: Iorane