Como as revistas de moda estão se adaptando perante à pandemia?

ISTITUTO DI MODA BURGO

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Recentemente falamos aqui sobre as capas de revistas de moda ao redor do mundo dos meses de março e abril relacionadas com a pandemia do COVID-19 que trouxeram o assunto de forma louvável e como essa abordagem em veículos de moda se faz tão importante nesse momento. Desde médicos nas capas da Vanity Fair Itália, um casal de modelo se beijando de máscaras na Vogue Portugal até uma capa totalmente em branco na Vogue Itália, tivemos muitos exemplos positivos e que repercutiram muito ao redor do mundo. Nessa última semana, a capa da Vogue Brasil polemizou na internet por trazer uma estética totalmente usual, sem considerar o panorama atual em que vivemos, com uma manchete que chocou a maioria das pessoas na internet e gerou uma repercussão negativa à revista. Uma das precursoras nessa discussão e que fez com que esse debate fosse expandido na web foi a criadora de conteúdo digital Lelê Santhana, uma jovem de 19 anos, que escreve para o seu próprio veículo digital, o Portal das Modas. Em seu instagram, a jovem faz um vídeo de carta aberta à Vogue mostrando sua percepção e indignação com a postura da revista, atitude que foi reforçada por milhares de pessoas na internet que assistiram o conteúdo.

As capas foram fotografadas em dezembro/2019 para celebrar os 45 anos da revista e o interior da matéria com Gisele em sua casa, de forma intimista e mostrando mais da sua vida e essência, também. Nas fotos, a top model aparece com peças da Miu Miu e da Chloé, com a chamada "novo normal: simplificar a vida e se concentrar no essencial são os caminhos para um futuro mais ético e saudável". Em meio ao caos que o mundo inteiro vive, com milhares de pessoas morrendo e outras tantas doentes e lutando para sobreviverem, não só da doença mas de fome e falta de recursos pela crise geral que a pandemia causou, choca muito que o "novo normal" seja levado por um veículo de moda tão relevante como uma modelo famosa, bonita e rica com um look grifado.

Sabemos que o público da Vogue é um público seleto e de elite por sua maioria e que consome produtos de luxo e vive uma situação de exceção na pandemia, mas ainda assim, leitores e críticos da internet em massa confrontaram a revista por sua postura. A moda é uma expressão comportamental e social, construída por todo o contexto em que vivemos e anda atrelada à tudo que nos rodeia. Sendo assim, era de se esperar que um veículo de moda teria postura jornalística refletindo, ainda que de forma artística, nosso cenário atual real, de forma a representar também nossa história. 


A pandemia que estamos enfrentando é um momento histórico que será recordado e revisado por centenas de anos, e capas de veículos jornalísticos, inclusive de moda, serão referências desse período no futuro também. Considerando tudo isso, capas como a da Revista Cláudia que traz "As mulheres contra a COVID-19" e a da Marie Claire México com uma médica que trabalha na linha de frente contra o COVID-19 como "Reais Inlfuenciadores" representam o momento com a devida relevância, sensibilidade e respeito e fizeram com que seus leitores se sentissem representados por ela. 


Outra capa questionada foi a da Marie Claire brasileira desse mês, que traz a atriz Giovanna Ewbank e seus dois filhos na capa em um cenário natural (em sua casa) mostrando uma chamada de simplicidade e empatia para voltarmos à essência. Porém, novamente, leitores questionam: que essência seria essa representada por alguém tão privilegiado e exceção ao que nosso país e mundo vivem? Sabemos que uma revista é feita por muito mais do que uma capa, mas ela é a porta de entrada para o seu conteúdo e deve refletir o que encontraremos nela, além de representar também o seu público.

Esse é o momento ideal para reinvenção da área de moda, seja em qualquer departamento, inclusive no jornalístico. As revistas de moda perderam sua relevância e espaço no mercado com o advento da internet e redes sociais, blogs e influenciadores digitais, e o momento de crise pode ser o melhor momento de mostrar que as revistas são relevantes e podem cumprir um papel jornalístico e informativo que faça a diferença e represente seus consumidores, de forma a agregar mais do que muitos conteúdos online. Esperamos que seja tempo de uma reflexão necessária nesse meio (e em todos os outros da moda) para que quem tenha realmente relevância e agregue ao seu público hoje, sobreviva. E para quem ainda não, possa se reinventar enquanto é tempo.  


Imagens de capa das revistas: Vogue Brasil, Marie Claire México, Claudia, Marie Claire Brasil.